23.2.06

Dia 3

Mas ninguém dá pela minha falta? Os meus pais? Os amigos?... Os inimigos?! Serei assim tão dispensável? E que posso fazer para ajudar? Bolas, mas quem precisa de ajuda sou eu… Não percebo.
Ontem custou-me imenso a adormecer, ora virava-me para um lado ora para outro. Que tormento! Houve uma altura em que me veio à cabeça mendigos, vagabundos, pedintes. A classe que faz das ruas a sua casa; das paragens o seu quarto; dos cartões a sua cama… tal como eles, tenho somente a roupa do corpo e a esperança.
Por diversas vezes vi tal cenário, o que me provocava algum incómodo, e até hoje nunca percebi o porquê de se deixar que pessoas durmam no frio da noite… mais do que nunca, sei o que isso é! Enquanto não adormeci, deixei me estar a observar as poucas estrelas que daqui consegui vislumbrar. Olhava-as fixamente, imaginando-me no espaço que as contém, que as envolve… No que tamanho brilho esconde e simultaneamente revela! À memória veio-me a vontade de ser astronauta… de ser novamente astronauta, e depois bombeiro e pelo meio polícia. Ser tudo o que sempre quis ser quando era mais “puto”. Julgo que o ideal seria encarnar um alpinista… seria-me mais útil!
Acabei por cair no sono mas pouco descansei. Sinto-me cada vez mais fraco, farto, sujo e impotente. Cravei as mãos nas pedras e tentei escalar até ao topo. Pedra ante pedra… nem a um palmo do chão me consegui distanciar! Engraçado… procuro alcançar “terra firme” quando na verdade estou enfiado nela! Prisioneiro dela… um autêntico hamster na roda.
Como se não bastasse a noite, hoje ainda choveu durante o dia e agora nem terra tenho, mas sim lama.
Os ténis já “perderam” a cor… e confirma-se que o castanho não me favorece!