30.3.06

Dia 8

Já chorei… Não sei se é vergonha, se não mas, também, que interessa?! Ninguém vê, ninguém sabe.
Ao fim destes dias já pouco me interessa saber se choro, se bato com a testa nas paredes húmidas e frias, se raspo com as unhas de forma a sair daqui para fora.

Era já tarde, estava a andar de bicicleta na minha rua. Numa manobra mais arriscada embati num canteiro público e mergulhei no alcatrão. Sangue por toda a cara, olho bastante afectado e uma aflição tremenda da minha mãe. Estará ela aflita neste momento? Não posso fazer nada.
Já não quero saber, procurem-me e encontram-me… Eu já me encontrei!

11.3.06

Dia 7

Já lá vai muito tempo! O meu desejo de voltar ao mundo é maior a cada minuto que passa. Quero voltar para junto de quem me quer bem. Estar com quem muito gosto, com quem me divirto e me faz rir, porque aqui?!... Aqui não tenho nada nem ninguém.
Quero jogar à bola, quero andar de bicicleta, fazer os trabalhos de casa, bem ou mal.
Esta noite sonhei com alguém que me foi especial. Alguém que esteve sempre do meu lado. Uma pessoa que durante o tempo que “cá” morou sempre a conheci generosa, carinhosa, que nunca recusou ajuda e sempre se ofereceu para ajudar.
Choro sempre que me recordo daquela tarde. O telefonema, o chegar ao lar, o subir as escadas e vê-la… a dor, o aperto que senti cá dentro. Um aperto que ainda hoje sinto, só superado pelas lágrimas que derramei na hora de me despedir!
Guardo de ti, o sorriso, a força de viver, e mesmo com o que aconteceu me ensinaste: não estamos cá eternamente. Alguém que guardo no coração e vive na memória, que me protege todos os dias.

5.3.06

Dia 6

Cheira mal… cheiro mal! Está muito desagradável aqui em baixo. Choveu o dia todo, e fez muito frio. Tentei enrolar-me, qual caracol, para que não sentisse os pêlos de pé!
Ontem de noite comecei a delirar… pareceu-me ter visto alguém a espreitar lá no alto, meia-idade, cabelo curto, e olhava-me fixamente. Esfreguei os olhos e sumiu-se!
Tinha os meus 5 anos quando adoeci, febres altas, vómitos e… alucinações. Dormia praticamente o dia todo e sonhava sempre com o mesmo. Era carregado em ombros, mãos e pés atados, por um sujeito alto, vestia uma gabardina preta, botas e um chapéu de abas… nunca lhe vi a cara! Caminhava em passos largos, em jeito de corrida, aos solavancos e de forma incómoda era levado para algum lado. Quando finalmente parava, segurado por trás pela cintura, e puxado para a frente… acordava! Suado, olhos a lacrimejar e quente, muito quente.

Nunca gritei pela minha mãe. Tinha vergonha, um rapaz tão crescido, como os meus tios diziam, a chamar pela mamã.
Ontem não teria vergonha…